terça-feira, 24 de julho de 2018

Papa Francisco/CNBB salvando esquerdas marxistas MST sem oxigênio

Aliança com os “Movimentos sociais” de inspiração marxista



Pondo na prática os postulados da Teologia da Libertação, o Papa Francisco tem usado o prestígio de seu cargo a serviço dos chamados “movimentos sociais”, que não escondem sua clara orientação marxista.

Esse apoio vai notadamente para o Encontro Mundial de Movimentos Populares, “uma plataforma construída por diversos movimentos populares em torno ao convite de Francisco a que os pobres e os povos organizados não se resignem e sejam protagonistas do (processo) de mudança”[1].

Na realidade, dita plataforma foi o resultado prático de um seminário que a Academia Pontifícia de Ciências chefiada pelo arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo organizou em Roma no dia 5 de dezembro de 2013 sobre a “A emergência das pessoas socialmente excluídas”, a cujo respeito nós trataremos mais amplamente nos capítulos seguintes.

Para esse seminário foram convidados líderes confessadamente marxistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil-MST (João Pedro Stédile), do Movimento dos Trabalhadores Excluídos da Argentina (Juan Grabois) e da organização internacional Via Campesina, os quais tiveram todas as despesas de viagem pagas pelo Vaticano.

Convém lembrar que se trata de movimentos para os quais “a estrada das mudanças pela via institucional parece decisivamente bloqueada” e que não hesitam em recorrer “à prática das ocupações de massa” — ou seja, à invasão sistemática de propriedades — a fim de abrir “outro espaço” de confrontação e fazer com que “a curva da luta de classes [seja] mundial” e entre numa nova “fase de ascensão” que faça a terra tremer[2].

Para tais movimentos, só quando a economia for “socializada e planificada”[3] é que se poderá realizar a “sociedade sem explorados nem exploradores”, o que implica “uma intervenção fortíssima do Estado”[4].

Em 2003, o líder do MST chegou a declarar:“Queremos a socialização dos meios de produção. Vamos adaptar as experiências cubana e soviética ao Brasil[5].

Pregação marxista nos Encontros Mundiais de Movimentos Populares


Até agora houve três Encontros Mundiais de Movimentos Populares.
O primeiro deles foi realizado de 27 a 29 de outubro de 2014 no próprio Vaticano e teve como principal participante Evo Morales, presidente da Bolívia, ícone dos movimentos sociais e indigenistas, o qual declarou que daí deveria emergir “uma grande aliança dos excluídos” em luta contra o capitalismo “que tudo compra e tudo vende”.

O segundo aconteceu em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, entre o 7 e 9 de julho de 2015, por ocasião da visita apostólica do Papa Francisco a dito país.  Seu ponto culminante foi um longo discurso do pontífice.

O terceiro encontro se realizou novamente no Vaticano entre os dias 3 e 5 de novembro de 2016 e sua vedette incontestável foi o ex-presidente de Uruguai, José Mujica. 

Apresentou-o aos participantes o jornalista Ignacio Ramonet, diretor do mensário ultra-esquerdista Le Monde diplomatique, para quem “Pepe é também um exemplo de coerência de vida. 

É um homem que militou quando em seu país havia uma horrível ditadura militar, uma das piores do Cone Sul, e ele escolheu a via das armas, porque a via da política não era possível”[6].

Durante os Encontros é feita uma atualização da situação mundial como esta é percebida pelos “movimentos sociais”, naturalmente em clave marxista. 

Na sua síntese do dia inaugural do primeiro Encontro, o líder do MST brasileiro, João Pedro Stédile, declarou que os trabalhos foram “inspirados nos aportes do lutador italiano Antonio Gramsci” e concluíram que “há uma crescente concentração da propriedade da terra, de riqueza […] por uma minoria de capitalistas”, que “o império dos Estados Unidos, com seus aliados no G8 e da OMC, controlam a economia mundial”, que na maioria dos países o poder judiciário “atua como instrumento de defesa dos interesses do capital” e que, pelo contrário, “as lutas sociais ainda estão na fase de ‘protestos’ e não da construção de um projeto de sociedade que envolva os trabalhadores e tenha como base à solidariedade, a igualdade e especialmente a justiça”[7].

Por sua vez, os ateliês de discussão do 2° Encontro concluíram, inter alios, que “os problemas do mundo do trabalho são estruturais, [pois] o modelo econômico capitalista procura uma altíssima rentabilidade a baixo custo”, devendo por isso ser substituído por “uma economia popular e social comunitária que resguarde a vida das comunidades [...] na qual prevaleça o companheirismo”. 

Afirmou-se igualmente que “a cidade pertence aos trabalhadores, [porque] foram eles que a construíram”, mas “atualmente são ocupadas pelos grandes capitais com interesses espúrios”, pelo qual se exige “a desapropriação, urbanização e regularização dos assentamentos informais e das vilas de emergência”, de onde “a necessidade urgente de articular uma reforma urbana e uma reforma agrária[8].

Declarações finais mais moderadas para fazer passar uma mensagem radical


No fim desses encontros é sempre aprovada uma declaração ligeiramente mais moderada. Seguem alguns exemplos.

A do primeiro Encontro afirma que “foram analisadas as causas estruturais da desigualdade e da exclusão”, chegando-se à conclusão de que “as raízes dos males sociais e ambientais” devem ser buscadas “na natureza injusta [não equitativa] e depredatória do sistema capitalista que coloca o lucro acima do ser humano”[9].

A “Carta de Santa Cruz”, do segundo Encontro, alega que se deve “superar um modelo social, político, econômico e cultural onde o mercado e o dinheiro se converteram nos reguladores das relações humanas em todos os níveis”, uma vez que “não queremos explorar, nem sermos explorados; não queremos excluir, nem sermos excluídos”.

Por isso, eles reafirmam o “compromisso com os processos de transformação e libertação [...] para dar vida às esperanças e às utopias que nos convocam a revolucionar as estruturas mais profundas de opressão, dominação, colonização e exploração”.

O segundo encontro em Santa Cruz, Bolívia. Evo com Che Guevara.
O segundo encontro em Santa Cruz, Bolívia. Evo com Che Guevara no peito.
E acrescentam que impulsionarão “formas alternativas de economia”, ou seja, “uma economia popular e social comunitária” na qual “prevaleça a solidariedade acima do lucro”, o que se traduz em concreto numa “reforma agrária integral para distribuir a terra de maneira justa e equitativa”[10]

O último Encontro serviu para fazer “Propostas de Ação Transformadora que os Movimentos Populares do mundo assumimos em diálogo com o papa Francisco”.

Elas são principalmente uma crítica das democracias ocidentais e um chamado a uma “democracia participativa”, nos moldes chavistas:

“As chamadas democracias representativas, cada vez mais representam as elites corporativas, o capital, os Bancos” e, por isso, é preciso projetar “iniciativas legislativas que promovam uma democracia participativa, na qual o protagonismo seja do povo”.

Quanto às migrações, deve-se “reclamar a existência de uma cidadania universal, que dilua as fronteiras (Sem Fronteiras!! Foro comunista!!) e estabeleça uma política migratória inclusiva”, criando “tribunais internacionais de opinião, com a capacidade de impor sanções éticas e simbólicas para gerar consciência em nível internacional”.( Tribunais pela OEA comunista e a ONU comunista)

No plano econômico-social, transparece melhor a meta comunista, pois almejam “a democratização do solo e a restruturação da propriedade da terra, para que ela seja distribuída entre aqueles que a trabalham”, para o que é preciso “avançar rumo à existência de formas de propriedade coletiva, que evitem sua mercantilização e uso lucrativo. […]

A terra deve ser de propriedade coletiva e garantir o cumprimento de sua função social que é alimentar e dar vida ao povo”[11].

De 16 a 19 de fevereiro de 2017 realizou-se na cidade de Modesto, na Califórnia, o “Primeiro Encontro de Movimentos Populares dos Estados Unidos”.

Sua mensagem dizia que “o racismo e a supremacia da raça branca são o pecado original que faz com que a sociedade [norte-]americana seja excepcional.

Eles continuam justificando um sistema capitalista sem regulações que idolatra a acumulação de riqueza acima das necessidades humanas”[12].
Militantes chavistas atacando opositores em ato eleitoral
Militantes chavistas atacando opositores em ato eleitoral

A Igreja assume oficialmente a agenda dos “movimentos populares”


Os Encontros têm sido patrocinados pelo hoje dissolvido Conselho Pontifício Justiça e Paz, bem como pelo enorme Dicastério para a Promoção Humana Integral, ambos presididos pelo cardeal Peter Turckson, que vê nesses Encontros “um grande diálogo que perpetuará no tempo [...] a coordenação entre os movimentos de base e a Igreja em todos seus níveis”, para que os marginalizados sejam “os protagonistas das mudanças econômicas, sociais, políticas e culturais que se mostram imprescindíveis”.

Por isso, “a Igreja pretende tomar as necessidades e aspirações dos movimentos populares como próprias[13].

Em uma conferência posterior, o purpurado ganense explicou que tais movimentos sociais “promovem um estilo de vida alternativo” que rejeita “o consumismo, o desperdício e o paradigma tecnocrático”, procurando “formas comunitárias de organização do trabalho, da terra e da vivenda”.

E, numa retórica que nenhum marxista rejeitaria, concluiu: “Não querem explorar nem serem explorados, excluir nem serem excluídos”[14].

Também o Papa Francisco, nas alocuções que dirigiu aos participantes de cada um desses Encontros, parece não desprezar esse tipo de retórica, pois renovou os apelos para mudar radicalmente as estruturas socioeconômicas atuais, baseadas na propriedade privada e na livre iniciativa, apesar de seus aspectos condenáveis não provirem dessas últimas, mas apenas de determinados excessos.

No primeiro Encontro, ele disse que “quer acompanhá-los nessa luta”, porque “nós cristãos temos [...] um programa, poderíamos dizer, revolucionário”, baseado na solidariedade, que consiste em “pensar e agir em termos de comunidade”, de “prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns”, pelo que é necessário “lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais”[15].

Segundo Ignacio Ramonet, acima citado, essa intervenção confirma “o novo papel histórico do Papa Francisco como abandeirado solidário da luta dos pobres da América Latina e dos marginalizados do mundo”[16].

Ao discursar em Santa Cruz de la Sierra durante o segundo Encontro, o Papa Francisco sublinhou que os problemas da América Latina e do mundo têm um “elo invisível” e uma “matriz global” que é “a lógica do lucro a todo o custo”, pela qual “o capital se torna um ídolo” e “a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo”.

Tal sistema esquece que “o destino universal dos bens [...] é uma realidade anterior à propriedade privada”, a qual “deve estar sempre em função das necessidades das pessoas.” 
Francisco com líderes de movimentos sociais do mundo inteiro

Assim, “é preciso dizer sem medo: ‘Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas’”, uma “mudança redentora[17].

No seu discurso aos participantes do último Encontro, posterior aos atentados que ensanguentaram a Europa, o Papa fustigou “um terrorismo de base que provém do controle global do dinheiro” e cuja raiz é “aquela estrutura injusta que une todas as exclusões que vós padeceis”, a qual “escraviza, rouba a liberdade, golpeia sem misericórdia” para “abater todos como reses”[18] .

Em carta aos participantes do Encontro regional nos Estados Unidos, após agradecer ao cardeal Turckson “por continuar acompanhando os movimentos populares” desde seu novo Dicastério, o Papa Francisco escreveu: 

“Faz tempo que enfrentamos a crise do paradigma imperante, um sistema que causa enormes sofrimentos à família humana para sustentar a tirania invisível do Dinheiro que somente garante os privilégios de uns poucos”[19].

Oxigênio para uma esquerda marxista em apuros


Que efeito prático para o avanço das correntes de esquerda marxista e pós-marxista têm essa pregação revolucionária do Papa Francisco e a colaboração do Vaticano com os movimentos populares? 

Por ocasião do primeiro simpósio em Roma, numa reunião paralela de movimentos altermundialistas, o ativista João Pedro Stédile havia declarado que “no atual contexto histórico, a correlação de forças em nível de luta de classes é bastante desfavorável às classes trabalhadoras” e que “o mundo vive um período de refluxo do movimento de massa”. 

Mas, inspirando-se na “escola dos marxistas históricos britânicos”, o líder do MST confiava em que o atual período de refluxo fosse também um “período de resistência... prelúdio de um processo de retomada”, para a qual seria preciso que “a classe trabalhadora se reúna em nível internacional”[20].

Após a realização desses três Encontros, Stédile poderia muito bem dizer: “Missão cumprida!”.

É o que, entusiasmado, exclama o advogado marxista Juan Grabois, consultor do dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, coordenador dos cartoneros de Buenos Aires e do Encontro Mundial de Movimentos Populares, na sua apresentação dos principais documentos publicados por este último organismo:

“Francisco atualizou o sentido da opção preferencial pelos pobres esclarecendo que ela implica não somente solidarizar-se com eles, mas reconhecê-los como sujeito social e político, promover seu protagonismo em todos os campos, acompanhá-los sempre a partir de sua própria realidade e nunca a partir de esquemas ideológicos abstratos. 

Em outras palavras, não se trata simplesmente de trabalhar pelos pobres, senão de lutar com os pobres contras as causas estruturais da desigualdade e da injustiça

Nesse sentido, as contribuições de Francisco ao pensamento popular — entre elas os dois discursos aos movimentos populares que se oferecem nesta edição — não somente têm renovado a doutrina social da Igreja, mas são hoje uma ferramenta sem preço para a atualização teórica e doutrinária dos que aspiramos para a transformação estrutural da sociedade e a superação do capitalismo[21].

O conhecido jornal virtual romano Il Manifesto, o único na Itália a colocar na epígrafe “Quotidiano comunista”, incluiu em uma das suas edições de outubro de 2017, como preparação ao centenário da Revolução Russa, um livro contendo os três discursos do Papa Francisco aos movimentos populares. 

A diretora explicou o motivo ao jornal dos bispos, Avvenire: “Porque consideramos como nossas essas mensagens do Papa e queremos levar aos nossos leitores o radicalismo e a simplicidade dessas palavras”[22]

No livro editado por Il Manifesto, Juan Grabois e Alessandro Santagata não escondem que boa parte dos movimentos populares opõe-se à Igreja em questões como o aborto ou os direitos homossexuais[23].

Como não dar razão ao artigo “Como o Papa Francisco se tornou o líder da esquerda global”, publicado por Francis X. Rocca no Wall Street Journal de 22 de dezembro de 2016[24]?
NOTAS

[6] http://www.movimientospopulares.org/wp-content/uploads/2016/11/pepemujica4.mp3 Essa não foi a única apologia à guerrilha, posto que no segundo dia do primeiro Encontro, Víctor Hugo López Rodríguez,  diretor do Centro de Direitos Humanos Frei Bartolomé de Las Casas, sediado em Chiapas, fez a apologia do Exército Zapatista de Libertação Nacional (do Comandante Marcos), o qual “rebelou a memória para irromper na história e começar a construir um mundo com justiça e dignidade” (http://mosvimientospopulares.org/wp-content/uploads/2014/10/DPI-Vaticano_Frayba.pdf ). E durante uma das sessões do terceiro Encontro, a ativista argentina Alejandra Díaz, representando a revista La Garganta poderosa, declarou que “viemos com o pensamento e a utopia do Ché Guevara, desejando que tenhamos um mundo melhor para todos, não somente para nós ou para uns poucos, um mundo que seja realmente igualitário para todos” (http://movimientospopulares.org/wp-content/uploads/2016/10/Alejandra_Diaz._Argentina2-online-audio-converter.com_.mp3)

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